04.01.2018 00h00mn
Num canavial em pleno Harlem
Uma instalação de Allison Janae Hamilton, uma jovem artista dos Estados Unidos da América, nascida em 1984 no Kentucky, exposição em exposição, até 15 de Janeiro, no The Studio Museum de New York, no Harlem, transportou-me de novo para um "Canavial" que o escultor português Alberto Carneiro (1937-2017) trouxe de Londres e instalou em Coimbra, numa das salas do Círculo de Artes Plásticas, nos idos de 1972. A notícia no The New York Times, ilustrada com a fotografia de Adam Reich que aqui reproduzo, reacende a vontade que tenho de voar até ao Harlem para rever nesse trabalho de Allison Janae Hamilton aquele "Canavial" que tanto me marcou, desde que o vi, pela primeira vez, ainda sem consciência da importância da nossa ligação à Natureza, em especial à Natureza do lugar onde nascemos e ao qual estamos sempre ligados. Queiramos ou não.
03.01.2018 12h00mn
Numa garrafa desencalhado
Iniciado há muito tempo no segredo de conservar veleiros em garrafas, numa noite recente, em vez de ir deitar-me na cama, retirei, com todo o cuidado, o barco que apodrecia dentro de uma velha garrafa de absinto, e logrei espaço para meter-me na garrafa e adormecer. Acordei, pela manhã, numa posição quase fetal, com a cabeça encostada ao gargalo, por onde entrava uma corrente de ar incómoda e fumos de cigarros já fumados. Ninguém repara num homem escondido numa garrafa como se fosse um veleiro, mas a visão obtida olhando o mundo através do vidro, cheio de defeitos, da própria garrafa, essa visão da realidade que alguns considerarão distorcida é única. Dorme-se bem, embora recomende, a quem queira experimentar uma fuga semelhante, o uso do garrafão. Há mais espaço vital.
02.01.2018 12h00mn
Num concerto em trajes menores
Gosto de assistir ao Concerto de Ano Novo que a Eurovisão transmite no primeiro dia do ano. Faço-o em trajes menores, às vezes de roupão, reclinado no sofá onde vejo televisão. Na Sala Dourada do "Musikverein" de Viena, cidade onde nunca estive, jamais poderia assistir em trajes menores a este famoso e considerado tradicional concerto, debicando doces e outras iguarias que ainda repousem na mesa do reveillon e conferindo, no facebook, mensagens de amigos e outros emails. Eu, que tenho o secreto e sonhado desejo de dirigir uma orquestra filarmónica, nem sei quantos ensaios já cumpri, em trajes menores, frente a espelhos, quando alguma música das que pedem batuta agitada me apanha naquela figura. Momentos íntimos que me fazem ruborizar se for visto nesse faz de conta espelhado que traduz mais um desejo, um dos que nem vale a pena incluir na lista a entregar ao jovem ano de 2018. Sim, na lista que incluiu o desejo de ser retratado pela Annie Leibovitz do jeito que ela fotografou Keith Haring (no meu caso forrado a páginas de jornais) e o desejo de ir até Moscovo de comboio para aí apanhar o Grande Transsiberiano e viajar até Pequim. Já vão três, mas podem aparecer ainda mais pois o prazo para apresentar a lista definitiva dos desejos foi, como sempre acontece todos os anos, prorrogado até aos Reis.
01.01.2018 12h00mn
Nesta "janeirinha" envergonhada
Há cento e cinquenta anos, rebentou no Porto, com ramificações em Braga e em Lisboa, um movimento de contestação a uma política fiscal brutal, num quadro económico caracterizado por uma enorme dívida externa e um enorme défice das contas públicas. Esta contestação ficou conhecida por "Janeirinha" e gerou, entre outros efeitos, o aparecimento do jornal "O Primeiro de Janeiro", um dos grandes títulos do país, o primeiro jornal que li pois era o jornal que o meu pai comprava, pelo menos aos domingos - uma edição com um suplemento a cores onde publicava a tira de BD de "O Reizinho", e ainda folhetins também em banda desenhada como eram, se a memória não me falha, "O Príncipe Valente" e "O Coração de Julieta". Como eu gostaria de saber desenhar ao ponto de poder rabiscar uma novela gráfica. Bom ano para todos.
31.12.2017 12h00mn
Na lassidão dos fins de ano
Quando um ano civil começa a aproximar-se do fim, apodera-se de mim uma espécie de lassidão muito mais inquietante do que qualquer uma dessas outras lassidões em que nos deixamos ficar, quando o podemos fazer, numa cama de algodão em rama. Sem fazer ondas, entenda-se. O ano só acaba amanhã, mas eu tenho estado a datar estes apontamentos com a data do dia seguinte, à semelhança de alguns jornais internacionais de referência, embora saiba que não é por muito se madrugar que amanhecerá mais cedo. Tampouco os anos começam sempre a 1 de Janeiro ou terminam sempre a 31 de Dezembro. Os anos ditos civis sim, mas cada um de nós tem várias datas que podem corresponder a períodos de tempo que podem durar anos.
30.12.2017 12h00mn
No Museu da Minha Existência
Estou olhando aquela radiografia, da capa do Notícias, evocativa do cinquentenário da morte de Fernando Pessoa. É, de todas as capas do JN do período em que lá trabalhei como jornalista, ou seja de 1977 a 2005, a minha capa preferida. Ostenta, de alto a baixo, um desenho de Fernando Pessoa sentado numa cadeira a ler um jornal claramente de formato broadsheet, desenho que Júlio Pomar fixou a traços largos e rápidos. Na verdade, a radiografia não é uma radiografia mas sim um fotolito (o que imprimiu a capa, que foi impressa a duas cores, a preto) e eu limito-me a fingir que estou a olhar para aquela película, que na foto aparece dobrada, com o cuidado que um médico porá quando observa uma radiografia de um doente. Esta encenação, montada para a fotografia, ocorreu quando já não trabalhava no Jornal de Notícias mas ainda usava suspensórios. Não sei há quanto tempo teria saído do jornal, mas sei que o jornal ainda não tinha saído de mim. Se é que algum dia acabará por sair. O fotolito, que eu resgatei do lixo, o destino habitual dos fotolitos, está exposto, algures, numa das paredes do Museu da Minha Existência.
29.12.2017 01h06mn
Na Estação de S. Bento (Porto)
Este canhenho arranca na ferroviária Estação de S. Bento, em pleno centro da cidade do Porto, como caderno de uma viagem sem pontos de partida e sem pontos de chegada. Por curiosidade, e embora este jornal privado seja apenas um espaço de matriz jornalística - o meu espaço como jornalista português, freelancer, carteira profissional 464 -, por curiosidade, posso referir que nasci muito perto daquela estação, no Hospital da Ordem do Terço, ao lado do Teatro Nacional de S. João. Roldeck, nome que resulta da contracção de Roldão com Woyzeck, é o meu nickname desde 1972, ano em que representei, no Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC), o papel de Woyzeck na peça homónima de Georges Buchner. E é também, a partir de agora, o nome deste canhenho onde espero partilhar textos pequenos, algumas aguarelas e algumas fotografias de minha autoria. Roldeck ponto pt.