04.03.2018 06h16mn
Numa caixinha para pó de arroz.
Estou a olhar essa caixinha para pó de arroz, uma caixa de metal, quiçá com espelho interior, e a pensar aconchegar-me nela durante uma próxima viagem clandestina até ao Japão. Efeitos secundários das cores e dos traços que sugerem calores e abraços, beijos e amassos, entre outras alucinações. Assim vou onde nunca fui e até viajo no tempo como aconteceu nos finais do século XV quando fui pela primeira vez ao Brasil integrando a equipa de Pero Vaz de Caminha.
28.02.2018 10h17mn
No rescaldo deste Fevereiro
Recuperando textos antigos, manuscritos esquecidos, fotografias amarelecidas e outras relíquias como relógios de pulso ou de bolso, canivetes e outros objectos dignos de vários acervos de vários museus, recuperando essas memórias 3D, lanço o meu dado da sorte sabendo que o brinde acabará sempre por sair à casa. É preciso cortar pelas óbvias linhas de corte e criar o tal cubo da sorte, colando as faces pelas badanas assinaladas, antes de poder dizer que os dados estão lançados. É só um, sei, mas se o clonar, uma única vez que seja, poderei utilizar aquela expressão, tão politicamente vulgar, no plural - os dados estão lançados - e esperar que a sorte me proteja no rescaldo deste mês de Fevereiro.
12.02.2018 13h35mn
Numa folha azul de 27 linhas
Numa folha azul de 27 linhas, duas das quais, a marcar as margens, vermelhas e perpendiculares às restantes 25, numa folha azul de 27 linhas é - dizem - proibido escrever nas margens, mas nem tudo o que está escrito é lei. Também devia ser proibido escrever nas entrelinhas e sabemos que nas entrelinhas é que muita gente consegue escrever a verdade. Pena é que não haja um dicionário ou um tradutor de entrelinhas, mesmo apenas on line. O tempo em que as declarações escritas e assinadas em papel azul de 27 linhas, com assinatura reconhecida por um notário, valiam para a vida já lá vai há muito. Valem, às vezes, só o tempo de um Carnaval, o que já não é mau.
10.02.2018 15h30mn
No escurinho do cinema
Hoje apetece-me ir ao cinema. Apetece-me fazer um intervalo na vida real durante uma hora e meia de faz de conta. Numa sala com tão pouca gente que seja possível despir o casaco e pendurá-lo na cadeira da frente. Como canta Paulo de Carvalho, "Sábado à tarde // no cinema da avenida // mal as luzes se apagavam // acendia o coração. // Sábado à tarde // era uma noite bonita // noite que sendo infinita // cabia na minha mão". Ou, como diz Rita Lee, "no escurinho do cinema // chupando drops de aniz // longe de qualquer problema // e perto de um final feliz". Hoje apetece-me ir ao cinema, como quando (...) "eu era o herói // e o meu cavalo só falava inglês" ou quando "a noiva do cowboy // era você além das outras três". Lembra aquela moda do Chico Buarque? No que diz respeito a letras de músicas, só lembro algumas partes. As melhores, claro.
09.02.2018 19h15mn
No Museu Soares dos Reis
[pintura ou colagem]
Um dia (quem sabe)
talvez vejam num museu
um trabalho meu.
Júlio Roldão 09. Fevereiro. 2018
Escrevi isto no portuense Museu Nacional Soares dos Reis, onde fui visitar José de Almada Negreiros, de "visita" ao Porto até o próximo dia 18 de Março. Neste primeiro olhar, senti a falta dos paineis que Almada criou para o Edifício das Matemáticas da Universidade de Coimbra. É obra também ignorada na cronologia do artista que sai no jornal 01 desta exposição de Almada no Soares dos Reis - "José de Almada Negreiros: desenho em movimento". Teria ficado bem ao lado dos estudos para as pinturas destinadas à Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos. Mesmo sem as cores das Matemáticas, prometi voltar ao museu para novo encontro com o Almada.
29.01.2018 09h30mn
Na fachada de uma casa (Cedofeita)
Na portuense Rua de Cedofeita, numa fachada de uma casa forrada a azulejos, alguém colou uns versos de Lourdes dos Anjos que cantam precisamente os azulejos do Porto. Esta intervenção fez-me procurar saber quem seria a autora e descobrir que é uma professora, mãe e avó, que elege a cidade do Porto, onde aliás vive, como tema poético. O grafitti dos versos fez-me recuar ao tempo dos meus vinte anos, quando as ruas das nossas cidades estavam pejadas de cartazes de Maria Helena Vieira da Silva a proclamar a rua como palco da poesia.
23.01.2018 19h27mn
Numa vala comum, indiferenciado.
Hoje sei que as páginas dos jornais ou das revistas atribuídas ao correio dos leitores são muitas vezes valas comuns onde quem lá vai parar pode sentir-se indesejado, mesmo tendo de mostrar-se agradecido. Um texto meu, escrito a pedido e na minha qualidade de antigo editor de "a Página da Educação", cargo que exerci nos primeiros 17 anos do título, foi parar ao espaço aberto aos leitores e não ao espaço dedicado aos testemunhos dos profissionais que passaram pelo jornal a celebrar 25 anos de existência. Confesso que fiquei magoado, desde logo por ter sido ignorado, faz agora cinco anos, nos convites para a festa dos 20 anos do jornal. Sei que estou velho (a minha carteira profissional de jornalista já é a número 208), mas tambem sei que para concretizar tal purga não era necessário pedir o testemunho. A menos que houvesse intenção de o publicar no espaço onde foi publicado, como quem põe alguém no lugar devido.
22.01.2018 07h17mn
Na última página do NYTimes
Na última página da edição internacional desta segunda feira, dia 22 de Janeiro de 2018, do The New York Times, reaparece aquela morena de Angola que mexia um chocalho na canela. Nem o Chico Buarque, que musicou e poetou a morena, nem a Clara Nunes, que lhe emprestou voz, nem qualquer um dos apaixonados da própria morena de Angola alguma vez souberam se era ela quem mexia o chocalho se era o chocalho que mexia com ela. Tampouco agora, menos morena, mais discreta, de chocalho novo. Certo certo é que tal chocalho continua a mexer com a gente.
20.01.2018 19h00mn
No Teatro Carlos Alberto (Porto)
Mestre Gil Vicente, ourives, poeta e dramaturgo, é sempre inspirador. O que ele, há quinhentos anos, escreveu para ser representado continua, estes séculos todos já passados, atual. Do Monólogo do Vaqueiro ou Auto da Visitação à Floresta de Enganos, passando pela trilogia das barcas, entre as quais se inclui o Auto de Moralidade da Embarcação do Inferno, os textos de Gil Vicente aguentam a passagem do tempo e imortalizam o autor. Estes textos são mais valiosos do que a Custódia de Belém, obra prima da ourivesaria portuguesa cuja autoria é também atribuída a Gil Vicente. Ao longo dos anos, eu que nunca representei Gil Vicente apesar de ter estado muitos anos ligado ao Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra, o grupo que mais divulgou o teatro vicentino, ao longo dos anos senti a tentação, nunca concretizada, de me inspirar num ou noutro texto de Mestre Gil para justificar outros textos. Mais fácil seria "roubar" a Custódia de Belém, um outro sonho de aventura jamais cumprido. Resta-me pois aproveitar o que ainda se representa de Gil Vicente como o recente Auto de Moralidade da Embarcação do Inferno que António Augusto Barros (Escola da Noite) e José Russo (Cendrev) trouxeram neste mês de Janeiro ao Porto - a barca onde garantidamente teremos lugar.
18.01.2018 11h11mn
No Hospital Lusíadas Porto
A aguardar informações sobre o estado de saúde de minha mãe, internada no Hospital Lusíadas Porto, fui desenhando a memória que guardo da Favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, cidade brasileira que minha mãe teria gostado conhecer, considerando a vontade que ela, desde muito jovem, sempre teve de receber uma "carta de chamada" do Brasil e aí poder viver. Há meia dúzia de anos, nas vésperas de uma viagem minha a São Paulo, ela perguntou-me se eu acreditava ser possível que alguém tivesse saudades de uma cidade onde nunca tinha estado, revelando que ela tinha muitas saudades, precisamente de São Paulo. Hoje, que ela está muito doente e quase a fazer 99 anos, não posso levá-la a São Paulo, mas talvez possa trazer-lhe um pedaço do Rio.