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Roldeck.

Júlio Roldão

23.01.2018 19h27mn

Numa vala comum, indiferenciado.

Hoje sei que as páginas dos jornais ou das revistas atribuídas ao correio dos leitores são muitas vezes valas comuns onde quem lá vai parar pode sentir-se indesejado, mesmo tendo de mostrar-se agradecido. Um texto meu, escrito a pedido e na minha qualidade de antigo editor de "a Página da Educação", cargo que exerci nos primeiros 17 anos do título, foi parar ao espaço aberto aos leitores e não ao espaço dedicado aos testemunhos dos profissionais que passaram pelo jornal a celebrar 25 anos de existência. Confesso que fiquei magoado, desde logo por ter sido ignorado, faz agora cinco anos, nos convites para a festa dos 20 anos do jornal. Sei que estou velho (a minha carteira profissional de jornalista já é a número 208), mas tambem sei que para concretizar tal purga não era necessário pedir o testemunho. A menos que houvesse intenção de o publicar no espaço onde foi publicado, como quem põe alguém no lugar devido.

22.01.2018 07h17mn

Na última página do NYTimes

Na última página da edição internacional desta segunda feira, dia 22 de Janeiro de 2018, do The New York Times, reaparece aquela morena de Angola que mexia um chocalho na canela. Nem o Chico Buarque, que musicou e poetou a morena, nem a Clara Nunes, que lhe emprestou voz, nem qualquer um dos apaixonados da própria morena de Angola alguma vez souberam se era ela quem mexia o chocalho se era o chocalho que mexia com ela. Tampouco agora, menos morena, mais discreta, de chocalho novo. Certo certo é que tal chocalho continua a mexer com a gente.

20.01.2018 19h00mn

No Teatro Carlos Alberto (Porto)

Mestre Gil Vicente, ourives, poeta e dramaturgo, é sempre inspirador. O que ele, há quinhentos anos, escreveu para ser representado continua, estes séculos todos já passados, atual. Do Monólogo do Vaqueiro ou Auto da Visitação à Floresta de Enganos, passando pela trilogia das barcas, entre as quais se inclui o Auto de Moralidade da Embarcação do Inferno, os textos de Gil Vicente aguentam a passagem do tempo e imortalizam o autor. Estes textos são mais valiosos do que a Custódia de Belém, obra prima da ourivesaria portuguesa cuja autoria é também atribuída a Gil Vicente. Ao longo dos anos, eu que nunca representei Gil Vicente apesar de ter estado muitos anos ligado ao Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra, o grupo que mais divulgou o teatro vicentino, ao longo dos anos senti a tentação, nunca concretizada, de me inspirar num ou noutro texto de Mestre Gil para justificar outros textos. Mais fácil seria "roubar" a Custódia de Belém, um outro sonho de aventura jamais cumprido. Resta-me pois aproveitar o que ainda se representa de Gil Vicente como o recente Auto de Moralidade da Embarcação do Inferno que António Augusto Barros (Escola da Noite) e José Russo (Cendrev) trouxeram neste mês de Janeiro ao Porto - a barca onde garantidamente teremos lugar.

18.01.2018 11h11mn

No Hospital Lusíadas Porto

A aguardar informações sobre o estado de saúde de minha mãe, internada no Hospital Lusíadas Porto, fui desenhando a memória que guardo da Favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, cidade brasileira que minha mãe teria gostado conhecer, considerando a vontade que ela, desde muito jovem, sempre teve de receber uma "carta de chamada" do Brasil e aí poder viver. Há meia dúzia de anos, nas vésperas de uma viagem minha a São Paulo, ela perguntou-me se eu acreditava ser possível que alguém tivesse saudades de uma cidade onde nunca tinha estado, revelando que ela tinha muitas saudades, precisamente de São Paulo. Hoje, que ela está muito doente e quase a fazer 99 anos, não posso levá-la a São Paulo, mas talvez possa trazer-lhe um pedaço do Rio.

15.01.2018 06h16mn

Na rotina das manhãs de segunda

Aqui não se passa nada. Na rotina das manhãs de segunda. De segunda feira, entenda-se, embora também pudesse ser de segunda categoria, de segundo plano. Não sei se o tal avião, o avião operário, acabou de levantar ou simplesmente aterrou. Meus braços estão dormentes, tento focar os meus olhos nas horas do despertar. É tarde para acordar. O motoqueiro estafeta também já distribuiu os jornais da madrugada. Aqui não se passa nada. Vou ter de me levantar.

13.01.2018 01h25mn

Numa onda de irreverência inconsequente

Ontem, enquanto esperava na Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto (AJHLP) pela hora do lançamento do livro "Instantâneos", de António Torres, a que me comprometera apresentar, coloquei o meu chapéu no manequim que Armando Alves decorou, no âmbito da série de manequins recriados por alguns artistas que assim contribuiram para uma campanha de angariação de fundos da AJHLP, e fotografei-o nesse preparo. Tal manequim poderia, antes da intervenção de Armando Alves, mostrar-se de chapéu, mas depois de trabalhado pelo artista deixa de poder assumir a sua função primeira de manequim ascendendo à categoria de obra de arte, como tal intocável, salvo pelo próprio autor. Enfiar o chapéu no manequim foi, no mínimo, uma irreverência inconsequente só desculpável pelo facto de gostar muito desse trabalho de Armando Alves, do manequim que ele forrou com recortes de jornais e outras coisas mais.

12.01.2018 12h12mn

Numa gaveta esquecida

Certa noite, fizeram-me uma espera e deram-me uma sova que me deixou prostrado no chão, à porta da casa onde vivia, na Rua do Teodoro, em Coimbra. Jovem jornalista, fora destacado, dias antes, para reportar um julgamento relacionado com incidentes ocorridos em ações de propaganda política, mas enganei-me na sala de audiências e fui parar a um julgamento de um patrão acusado de abusar sexualmente de uma operária. Considerando este processo bem mais importante, assisti à sessão que, naquela instância, terminou com a condenação do abusador, como reportei no Jornal de Notícias, apesar dos esforços do advogado da defesa a querer subornar-me com dinheiro para que eu ignorasse o caso. Dias depois, por ter dado publicidade ao julgamento, fui espancado, na mesma noite em que também espancaram o advogado de acusação.

11.01.2018 15h31mn

Na memória e de memória

Há - dizem-me sempre - nos meus rascunhos e nos meus esquissos um eterno borrão de matriz gráfica. Se calhar, os treze anos de liberdade que já passaram, desde que acabou a pena maior de 28 anos (de 1977 a 2005) que cumpri, entre pirâmides invertidas, narizes de cera e outros leads, estes últimos treze anos ainda são insuficientes para a desejada e procurada desformatação. Nesta permanente recriação da vida, neste teatro, onde a memória não é seguramente muito fiável, acredito que voltei a nascer quando andava nos 18 anos e não sabia mesmo nada de nada, entretido a deixar crescer barba no Verão de 1971, o último antes de chegar a Coimbra e antes de mergulhar de cabeça num canavial que o escultor e mestre Alberto Carneiro ali instalou, num famoso triângulo do Bairro das Artes, cujos vértices eram o Círculo de Artes Plásticas, à Rua de Castro Matoso, a Clepsidra, na mesma rua, e as instalações da Associação Académica de Coimbra, no nº 1 da Rua Padre António Vieira.

10.01.2018 11h59mn

No louvor do público da Poesia

Esquissando a apresentação de um livro de poemas de um poeta que se estreia a publicar aos 95 anos - "Instantâneos", de António Torres -, reli o poema de Nanni Balestrini "Pequeno louvor do público da poesia" e acabei por dar uma volta completa ao fio condutor da apresentação que aceitei fazer. Uma apresentação é sempre um pretexto para outro texto mas não pode recorrer ao acervo do narcisismo do apresentador, nem como bordão. Para narcisismo bastam-me os autorretratos que se acumulam nos meus sotãos de recolector. Dia 12, ao fim da tarde, comprovarei se, como diz Balestrini, o público da poesia é atencioso, generoso e atento. O poeta a estrear-se aos 95 anos merece isso, merece até alguma curiosidade da Imprensa que, julgo com tristeza, não irá ter.

09.01.2018 01h15mn

Na parede de um museu inventado

Este quadro dito "Natureza viva", apresentado como obra de técnica mista, não existe. A moldura que o enquadra é a que enquadrava um velho quadro a óleo, de autor desconhecido, que existia na casa dos meus pais a retratar duas pessoas que pescavam nas margens de um rio. Mas a curiosidade de saber quem seria o autor de tal quadro, levou-me a desenquadrá-lo da moldura e esta sobre um tapete vermelho enquadrou a dita "Natureza viva", devidamente fotografada por um smartphone e trabalhada digitalmente para figurar numa parede de um museu inventado. O velho e pequeno quadro que deu origem a tudo isto não está assinado, nem me parece que tenha traços ou cores que, só por si, identifiquem o pintor. Tampouco sei (por enorme desconhecimento) se poderá ser seja uma cópia de um original conhecido. Sei que é um dos primeiros quadros que vi na minha vida. Ainda menino. O quadro da pesca, não esta Natureza viva.