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Roldeck.

Júlio Roldão

08.01.2018 00h00mn

Na Praia dos Beijinhos, em Matosinhos

Quando quero ver o mar, vou a Matosinhos. Vou a Leça da Palmeira. Gosto de beber um copo, ao fim da tarde, num dos bares de praia, como o Beijo Bar, na Praia dos Beijinhos, à Avenida da Liberdade em Leça da Palmeira. Na esplanada ou mesmo nas mesas interiores deste Beijo Bar vê-se o elegantíssimo Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões, cuja silhueta, estou convencido, marcará pela positiva o olhar de quem o veja vindo do mar. Embora sejam edifícios diferentes e que não se confundem, este terminal, desenhado pelo arquitecto Luís Pedro Silva, faz-me lembrar o Museu Guggenheim de Nova Iorque, desenhado por Frank Lloyd Wright. Gosto dos dois edifícios - não entrei no Guggenheim de Nova Iorque pois na única e rápida visita à cidade só tive a oportunidade de visitar um museu e o escolhido foi o MoMA, mas vi-o de fora e vi como se destaca no local onde foi construído. Tal como o edifício do Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões, que já visitei e que fixei no primeiro esquisso deste ano, desenhado no Beijo Bar da Praia dos Beijinhos, em Leça da Palmeira, Matosinhos. Esquisso aqui adulterado digitalmente.

07.01.2018 00h00mn

Numa página sete esborratada

A impressora madrilena onde foi impresso o meu exemplar do International New York Times deste fim-de-semana descuidou-se e a páginas tantas derramou tinta a mais na última coluna de um artigo sobre a política para os imigrantes em vigor nos Estados Unidos sob a Administração Trump. Não fora esta borradela de tinta e teria passado pela página como cão por vinha vindimada, mas o borrão fez-me parar, fez-me olhar para a esborrotadela com outros olhos e, por último, transformar um pormenor da página numa imagem que depois trabalhei digitalmente. É provável que venha a recortar parte dessa página para a colar num dos meus muitos cadernos de colagens e outros escritos, coisa que não aconteceria se a impressão tivesse saído bem. Revelando que teria sempre a hipótese de ler o artigo na Internet, sublinho esta madrugadora experiência como a prova do meu apego aos jornais impressos em papel. A imagem, aqui reproduzida, foi roubada ao canto inferior direito da página sete (direita baixa, em teatro), tendo sido depois trabalhada digitalmente. É uma imagem contraditória - tem a cor vermelha, embora diga que o jornal é a preto e branco -, mas muito menos falsa do que outras comunicações e notícias que por aí circulam como sendo verdadeiras.

06.01.2018 00h00mn

No limite da última hora

No limite da última hora, ou seja, até à meia noite do Dia de Reis será possível acrescentar os oito desejos em falta para completar os doze desejos a que temos direito se entramos no Ano Novo a comer uvas passas ao ritmo das badaladas da noite de festa. Até ao momento só divulguei quatro desejos - ser fotografado por Annie Leibovitz do jeito que ela fotografou Keith Haring, viajar no Grande Transsiberiano, de Moscovo a Pequim, dirigir uma orquestra filarmónica e cumprir uma residência literária em Matsuyama -, pelo que ainda há a possibilidade de fazer aumentar esta lista, embora quatro em doze, um terço, portanto, seja uma percentagem mais do que aceitável neste contexto. Poderei dedicar um trimestre de 2018 a cada um destes quatro desafios. Também posso reinventar (uma palavra da moda) os meus próprios desejos e deixar cair algum ou alguns dos quatro já revelados, como por exemplo esse de querer ser maestro de uma filarmónica, não sabendo nada ou quase nada de música, ou o de querer ser fotografado por Annie Leibovitz. Não queria eu mais nada, mesmo acreditando que para lá da gelosia brilha 2018.

05.01.2018 11h00mn

Num bar especial em Matsuyama

O meu quarto desejo para 2018 é outra viagem - quero conhecer Matsuyama, a cidade japonesa onde nasceu, no século XIX, Masaoka Shiki, um dos quatro mestres japoneses da poesia haiku. Em Matsuyama, há bares que desembrulham cocktails com a métrica da poesia haiku, ou seja, ao ritmo de 17 sílabas distribuídas por três versos de cinco, sete e cinco sílabas, e até caixas, como as dos correios, destinadas a receber originais da poesia haiku que, regularmente, são avaliadas para publicação das selecionadas. É um belo destino e eu, modéstia à parte, nem desdenharia cumprir nessa cidade uma residência literária. Conjugando a poesia com alguma ilustração, ensaiando uma qualquer novela gráfica. É um desejo, o quarto eleito para 2018.

04.01.2018 00h00mn

Num canavial em pleno Harlem

Uma instalação de Allison Janae Hamilton, uma jovem artista dos Estados Unidos da América, nascida em 1984 no Kentucky, exposição em exposição, até 15 de Janeiro, no The Studio Museum de New York, no Harlem, transportou-me de novo para um "Canavial" que o escultor português Alberto Carneiro (1937-2017) trouxe de Londres e instalou em Coimbra, numa das salas do Círculo de Artes Plásticas, nos idos de 1972. A notícia no The New York Times, ilustrada com a fotografia de Adam Reich que aqui reproduzo, reacende a vontade que tenho de voar até ao Harlem para rever nesse trabalho de Allison Janae Hamilton aquele "Canavial" que tanto me marcou, desde que o vi, pela primeira vez, ainda sem consciência da importância da nossa ligação à Natureza, em especial à Natureza do lugar onde nascemos e ao qual estamos sempre ligados. Queiramos ou não.

03.01.2018 12h00mn

Numa garrafa desencalhado

Iniciado há muito tempo no segredo de conservar veleiros em garrafas, numa noite recente, em vez de ir deitar-me na cama, retirei, com todo o cuidado, o barco que apodrecia dentro de uma velha garrafa de absinto, e logrei espaço para meter-me na garrafa e adormecer. Acordei, pela manhã, numa posição quase fetal, com a cabeça encostada ao gargalo, por onde entrava uma corrente de ar incómoda e fumos de cigarros já fumados. Ninguém repara num homem escondido numa garrafa como se fosse um veleiro, mas a visão obtida olhando o mundo através do vidro, cheio de defeitos, da própria garrafa, essa visão da realidade que alguns considerarão distorcida é única. Dorme-se bem, embora recomende, a quem queira experimentar uma fuga semelhante, o uso do garrafão. Há mais espaço vital.

02.01.2018 12h00mn

Num concerto em trajes menores

Gosto de assistir ao Concerto de Ano Novo que a Eurovisão transmite no primeiro dia do ano. Faço-o em trajes menores, às vezes de roupão, reclinado no sofá onde vejo televisão. Na Sala Dourada do "Musikverein" de Viena, cidade onde nunca estive, jamais poderia assistir em trajes menores a este famoso e considerado tradicional concerto, debicando doces e outras iguarias que ainda repousem na mesa do reveillon e conferindo, no facebook, mensagens de amigos e outros emails. Eu, que tenho o secreto e sonhado desejo de dirigir uma orquestra filarmónica, nem sei quantos ensaios já cumpri, em trajes menores, frente a espelhos, quando alguma música das que pedem batuta agitada me apanha naquela figura. Momentos íntimos que me fazem ruborizar se for visto nesse faz de conta espelhado que traduz mais um desejo, um dos que nem vale a pena incluir na lista a entregar ao jovem ano de 2018. Sim, na lista que incluiu o desejo de ser retratado pela Annie Leibovitz do jeito que ela fotografou Keith Haring (no meu caso forrado a páginas de jornais) e o desejo de ir até Moscovo de comboio para aí apanhar o Grande Transsiberiano e viajar até Pequim. Já vão três, mas podem aparecer ainda mais pois o prazo para apresentar a lista definitiva dos desejos foi, como sempre acontece todos os anos, prorrogado até aos Reis.

01.01.2018 12h00mn

Nesta "janeirinha" envergonhada

Há cento e cinquenta anos, rebentou no Porto, com ramificações em Braga e em Lisboa, um movimento de contestação a uma política fiscal brutal, num quadro económico caracterizado por uma enorme dívida externa e um enorme défice das contas públicas. Esta contestação ficou conhecida por "Janeirinha" e gerou, entre outros efeitos, o aparecimento do jornal "O Primeiro de Janeiro", um dos grandes títulos do país, o primeiro jornal que li pois era o jornal que o meu pai comprava, pelo menos aos domingos - uma edição com um suplemento a cores onde publicava a tira de BD de "O Reizinho", e ainda folhetins também em banda desenhada como eram, se a memória não me falha, "O Príncipe Valente" e "O Coração de Julieta". Como eu gostaria de saber desenhar ao ponto de poder rabiscar uma novela gráfica. Bom ano para todos.

31.12.2017 12h00mn

Na lassidão dos fins de ano

Quando um ano civil começa a aproximar-se do fim, apodera-se de mim uma espécie de lassidão muito mais inquietante do que qualquer uma dessas outras lassidões em que nos deixamos ficar, quando o podemos fazer, numa cama de algodão em rama. Sem fazer ondas, entenda-se. O ano só acaba amanhã, mas eu tenho estado a datar estes apontamentos com a data do dia seguinte, à semelhança de alguns jornais internacionais de referência, embora saiba que não é por muito se madrugar que amanhecerá mais cedo. Tampouco os anos começam sempre a 1 de Janeiro ou terminam sempre a 31 de Dezembro. Os anos ditos civis sim, mas cada um de nós tem várias datas que podem corresponder a períodos de tempo que podem durar anos.

30.12.2017 12h00mn

No Museu da Minha Existência

Estou olhando aquela radiografia, da capa do Notícias, evocativa do cinquentenário da morte de Fernando Pessoa. É, de todas as capas do JN do período em que lá trabalhei como jornalista, ou seja de 1977 a 2005, a minha capa preferida. Ostenta, de alto a baixo, um desenho de Fernando Pessoa sentado numa cadeira a ler um jornal claramente de formato broadsheet, desenho que Júlio Pomar fixou a traços largos e rápidos. Na verdade, a radiografia não é uma radiografia mas sim um fotolito (o que imprimiu a capa, que foi impressa a duas cores, a preto) e eu limito-me a fingir que estou a olhar para aquela película, que na foto aparece dobrada, com o cuidado que um médico porá quando observa uma radiografia de um doente. Esta encenação, montada para a fotografia, ocorreu quando já não trabalhava no Jornal de Notícias mas ainda usava suspensórios. Não sei há quanto tempo teria saído do jornal, mas sei que o jornal ainda não tinha saído de mim. Se é que algum dia acabará por sair. O fotolito, que eu resgatei do lixo, o destino habitual dos fotolitos, está exposto, algures, numa das paredes do Museu da Minha Existência.