15.01.2018 06h16mn
Na rotina das manhãs de segunda
Aqui não se passa nada. Na rotina das manhãs de segunda. De segunda feira, entenda-se, embora também pudesse ser de segunda categoria, de segundo plano. Não sei se o tal avião, o avião operário, acabou de levantar ou simplesmente aterrou. Meus braços estão dormentes, tento focar os meus olhos nas horas do despertar. É tarde para acordar. O motoqueiro estafeta também já distribuiu os jornais da madrugada. Aqui não se passa nada. Vou ter de me levantar.
13.01.2018 01h25mn
Numa onda de irreverência inconsequente
Ontem, enquanto esperava na Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto (AJHLP) pela hora do lançamento do livro "Instantâneos", de António Torres, a que me comprometera apresentar, coloquei o meu chapéu no manequim que Armando Alves decorou, no âmbito da série de manequins recriados por alguns artistas que assim contribuiram para uma campanha de angariação de fundos da AJHLP, e fotografei-o nesse preparo. Tal manequim poderia, antes da intervenção de Armando Alves, mostrar-se de chapéu, mas depois de trabalhado pelo artista deixa de poder assumir a sua função primeira de manequim ascendendo à categoria de obra de arte, como tal intocável, salvo pelo próprio autor. Enfiar o chapéu no manequim foi, no mínimo, uma irreverência inconsequente só desculpável pelo facto de gostar muito desse trabalho de Armando Alves, do manequim que ele forrou com recortes de jornais e outras coisas mais.
12.01.2018 12h12mn
Numa gaveta esquecida
Certa noite, fizeram-me uma espera e deram-me uma sova que me deixou prostrado no chão, à porta da casa onde vivia, na Rua do Teodoro, em Coimbra. Jovem jornalista, fora destacado, dias antes, para reportar um julgamento relacionado com incidentes ocorridos em ações de propaganda política, mas enganei-me na sala de audiências e fui parar a um julgamento de um patrão acusado de abusar sexualmente de uma operária. Considerando este processo bem mais importante, assisti à sessão que, naquela instância, terminou com a condenação do abusador, como reportei no Jornal de Notícias, apesar dos esforços do advogado da defesa a querer subornar-me com dinheiro para que eu ignorasse o caso. Dias depois, por ter dado publicidade ao julgamento, fui espancado, na mesma noite em que também espancaram o advogado de acusação.
11.01.2018 15h31mn
Na memória e de memória
Há - dizem-me sempre - nos meus rascunhos e nos meus esquissos um eterno borrão de matriz gráfica. Se calhar, os treze anos de liberdade que já passaram, desde que acabou a pena maior de 28 anos (de 1977 a 2005) que cumpri, entre pirâmides invertidas, narizes de cera e outros leads, estes últimos treze anos ainda são insuficientes para a desejada e procurada desformatação. Nesta permanente recriação da vida, neste teatro, onde a memória não é seguramente muito fiável, acredito que voltei a nascer quando andava nos 18 anos e não sabia mesmo nada de nada, entretido a deixar crescer barba no Verão de 1971, o último antes de chegar a Coimbra e antes de mergulhar de cabeça num canavial que o escultor e mestre Alberto Carneiro ali instalou, num famoso triângulo do Bairro das Artes, cujos vértices eram o Círculo de Artes Plásticas, à Rua de Castro Matoso, a Clepsidra, na mesma rua, e as instalações da Associação Académica de Coimbra, no nº 1 da Rua Padre António Vieira.
10.01.2018 11h59mn
No louvor do público da Poesia
Esquissando a apresentação de um livro de poemas de um poeta que se estreia a publicar aos 95 anos - "Instantâneos", de António Torres -, reli o poema de Nanni Balestrini "Pequeno louvor do público da poesia" e acabei por dar uma volta completa ao fio condutor da apresentação que aceitei fazer. Uma apresentação é sempre um pretexto para outro texto mas não pode recorrer ao acervo do narcisismo do apresentador, nem como bordão. Para narcisismo bastam-me os autorretratos que se acumulam nos meus sotãos de recolector. Dia 12, ao fim da tarde, comprovarei se, como diz Balestrini, o público da poesia é atencioso, generoso e atento. O poeta a estrear-se aos 95 anos merece isso, merece até alguma curiosidade da Imprensa que, julgo com tristeza, não irá ter.
09.01.2018 01h15mn
Na parede de um museu inventado
Este quadro dito "Natureza viva", apresentado como obra de técnica mista, não existe. A moldura que o enquadra é a que enquadrava um velho quadro a óleo, de autor desconhecido, que existia na casa dos meus pais a retratar duas pessoas que pescavam nas margens de um rio. Mas a curiosidade de saber quem seria o autor de tal quadro, levou-me a desenquadrá-lo da moldura e esta sobre um tapete vermelho enquadrou a dita "Natureza viva", devidamente fotografada por um smartphone e trabalhada digitalmente para figurar numa parede de um museu inventado. O velho e pequeno quadro que deu origem a tudo isto não está assinado, nem me parece que tenha traços ou cores que, só por si, identifiquem o pintor. Tampouco sei (por enorme desconhecimento) se poderá ser seja uma cópia de um original conhecido. Sei que é um dos primeiros quadros que vi na minha vida. Ainda menino. O quadro da pesca, não esta Natureza viva.
08.01.2018 00h00mn
Na Praia dos Beijinhos, em Matosinhos
Quando quero ver o mar, vou a Matosinhos. Vou a Leça da Palmeira. Gosto de beber um copo, ao fim da tarde, num dos bares de praia, como o Beijo Bar, na Praia dos Beijinhos, à Avenida da Liberdade em Leça da Palmeira. Na esplanada ou mesmo nas mesas interiores deste Beijo Bar vê-se o elegantíssimo Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões, cuja silhueta, estou convencido, marcará pela positiva o olhar de quem o veja vindo do mar. Embora sejam edifícios diferentes e que não se confundem, este terminal, desenhado pelo arquitecto Luís Pedro Silva, faz-me lembrar o Museu Guggenheim de Nova Iorque, desenhado por Frank Lloyd Wright. Gosto dos dois edifícios - não entrei no Guggenheim de Nova Iorque pois na única e rápida visita à cidade só tive a oportunidade de visitar um museu e o escolhido foi o MoMA, mas vi-o de fora e vi como se destaca no local onde foi construído. Tal como o edifício do Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões, que já visitei e que fixei no primeiro esquisso deste ano, desenhado no Beijo Bar da Praia dos Beijinhos, em Leça da Palmeira, Matosinhos. Esquisso aqui adulterado digitalmente.
07.01.2018 00h00mn
Numa página sete esborratada
A impressora madrilena onde foi impresso o meu exemplar do International New York Times deste fim-de-semana descuidou-se e a páginas tantas derramou tinta a mais na última coluna de um artigo sobre a política para os imigrantes em vigor nos Estados Unidos sob a Administração Trump. Não fora esta borradela de tinta e teria passado pela página como cão por vinha vindimada, mas o borrão fez-me parar, fez-me olhar para a esborrotadela com outros olhos e, por último, transformar um pormenor da página numa imagem que depois trabalhei digitalmente. É provável que venha a recortar parte dessa página para a colar num dos meus muitos cadernos de colagens e outros escritos, coisa que não aconteceria se a impressão tivesse saído bem. Revelando que teria sempre a hipótese de ler o artigo na Internet, sublinho esta madrugadora experiência como a prova do meu apego aos jornais impressos em papel. A imagem, aqui reproduzida, foi roubada ao canto inferior direito da página sete (direita baixa, em teatro), tendo sido depois trabalhada digitalmente. É uma imagem contraditória - tem a cor vermelha, embora diga que o jornal é a preto e branco -, mas muito menos falsa do que outras comunicações e notícias que por aí circulam como sendo verdadeiras.
06.01.2018 00h00mn
No limite da última hora
No limite da última hora, ou seja, até à meia noite do Dia de Reis será possível acrescentar os oito desejos em falta para completar os doze desejos a que temos direito se entramos no Ano Novo a comer uvas passas ao ritmo das badaladas da noite de festa. Até ao momento só divulguei quatro desejos - ser fotografado por Annie Leibovitz do jeito que ela fotografou Keith Haring, viajar no Grande Transsiberiano, de Moscovo a Pequim, dirigir uma orquestra filarmónica e cumprir uma residência literária em Matsuyama -, pelo que ainda há a possibilidade de fazer aumentar esta lista, embora quatro em doze, um terço, portanto, seja uma percentagem mais do que aceitável neste contexto. Poderei dedicar um trimestre de 2018 a cada um destes quatro desafios. Também posso reinventar (uma palavra da moda) os meus próprios desejos e deixar cair algum ou alguns dos quatro já revelados, como por exemplo esse de querer ser maestro de uma filarmónica, não sabendo nada ou quase nada de música, ou o de querer ser fotografado por Annie Leibovitz. Não queria eu mais nada, mesmo acreditando que para lá da gelosia brilha 2018.
05.01.2018 11h00mn
Num bar especial em Matsuyama
O meu quarto desejo para 2018 é outra viagem - quero conhecer Matsuyama, a cidade japonesa onde nasceu, no século XIX, Masaoka Shiki, um dos quatro mestres japoneses da poesia haiku. Em Matsuyama, há bares que desembrulham cocktails com a métrica da poesia haiku, ou seja, ao ritmo de 17 sílabas distribuídas por três versos de cinco, sete e cinco sílabas, e até caixas, como as dos correios, destinadas a receber originais da poesia haiku que, regularmente, são avaliadas para publicação das selecionadas. É um belo destino e eu, modéstia à parte, nem desdenharia cumprir nessa cidade uma residência literária. Conjugando a poesia com alguma ilustração, ensaiando uma qualquer novela gráfica. É um desejo, o quarto eleito para 2018.