20.03.2018 07h55mn
Na minha oficina da palavra
Descubro, num anúncio dos centenários joalheiros Van Cleef & Arpels publicado na última página da edição internacional de hoje, dia 20 de março, do New York Times, sob o título "Such a lovely Spring", que a Primavera, neste nosso hemisfério Norte, vai chegar esta tarde. Esta chegada lembra-me sempre a peça de teatro "O Despertar da Primavera", de Frank Wedeking, e tudo o que ela desperta, o que justificou, hoje, o trabalho oficinal da palavra que reproduzo na imagem anexa. Este exercício é, para mim, um dos prazeres da leitura dos jornais de papel. É quase um recorte de jornal.
19.03.2018 09h33mn
No dia dito Dia do Pai
Dezasseis anos depois de ter-me despedido do meu pai, ganhei coragem e fiz um desenho que lhe teria oferecido caso ainda pudesse. O desenho é sempre o menos importante e não passa de um pretexto para outros textos. No caso para lembrar-me, como acontece muitas vezes, do meu pai, um homem bom incapaz, por exemplo, de utilizar palavrões na linguagem corrente. Lembro-me que um dia, atrevassando ao lado dele o portuense largo fronteiro à estação ferroviária de Campanhã, tive a deselegância de comentar a lentidão de um autocarro que no momento ali passava com a frase grosseira "esta merda nunca mais anda". Olhando-me desagradado, meu pai limitou-se a perguntar se era essa a linguagem que eu andava a aprender na Universidade de Coimbra.
16.03.2018 11h59mn
Numa Maré do Rio de Janeiro,
Regresso às imagens que trouxe do Rio de Janeiro para recriar as cores da paleta da minha alma na ressaca da execução, aos 38 anos, de Marielle Franco, mulher libertada e libertadora da favela da Maré, eleita vereadora da cidade maravilhosa e fiel defensora dos que ainda vivem nas condições em que ela nasceu e cresceu. Vítima do ódio cultivado pelos que vivem a negar cidadania aos outros, Marielle será sempre o rosto de uma mulher cidadã inteira a desafiar a lei dos seus assassinos, velhos que ainda subjugam, pelo terror das armas de fogo e outras conivências, largos exércitos de escravos.
12.03.2018 08h08mn
Na minha velha Remington
Com um nome de guerra e de poderosas armas mais temíveis do que as espingardas que também usam esse apelido, as máquinas de escrever antigas como a minha velha Remington têm a enorme vantagem de assumir, na versão final, versões preliminares mal escondidas sob tantos x quantos os necessários para tentar esconder a palavra ou a frase repudiadas. As velhas máquinas de escrever revelavam segredos antigos próprios do ofício da escrita ou até segredos de quem as utilizava para escrever. Primeiro escreveu desenhos, depois riscou desenhos e traçou desejos. Mas ficou lá tudo, no papel. Num original que assume o histórico daquela criação trabalhada como um acto oficinal. Tecnologias de fraca intensidade, no patamar dos lápis.
04.03.2018 06h16mn
Numa caixinha para pó de arroz.
Estou a olhar essa caixinha para pó de arroz, uma caixa de metal, quiçá com espelho interior, e a pensar aconchegar-me nela durante uma próxima viagem clandestina até ao Japão. Efeitos secundários das cores e dos traços que sugerem calores e abraços, beijos e amassos, entre outras alucinações. Assim vou onde nunca fui e até viajo no tempo como aconteceu nos finais do século XV quando fui pela primeira vez ao Brasil integrando a equipa de Pero Vaz de Caminha.
28.02.2018 10h17mn
No rescaldo deste Fevereiro
Recuperando textos antigos, manuscritos esquecidos, fotografias amarelecidas e outras relíquias como relógios de pulso ou de bolso, canivetes e outros objectos dignos de vários acervos de vários museus, recuperando essas memórias 3D, lanço o meu dado da sorte sabendo que o brinde acabará sempre por sair à casa. É preciso cortar pelas óbvias linhas de corte e criar o tal cubo da sorte, colando as faces pelas badanas assinaladas, antes de poder dizer que os dados estão lançados. É só um, sei, mas se o clonar, uma única vez que seja, poderei utilizar aquela expressão, tão politicamente vulgar, no plural - os dados estão lançados - e esperar que a sorte me proteja no rescaldo deste mês de Fevereiro.
12.02.2018 13h35mn
Numa folha azul de 27 linhas
Numa folha azul de 27 linhas, duas das quais, a marcar as margens, vermelhas e perpendiculares às restantes 25, numa folha azul de 27 linhas é - dizem - proibido escrever nas margens, mas nem tudo o que está escrito é lei. Também devia ser proibido escrever nas entrelinhas e sabemos que nas entrelinhas é que muita gente consegue escrever a verdade. Pena é que não haja um dicionário ou um tradutor de entrelinhas, mesmo apenas on line. O tempo em que as declarações escritas e assinadas em papel azul de 27 linhas, com assinatura reconhecida por um notário, valiam para a vida já lá vai há muito. Valem, às vezes, só o tempo de um Carnaval, o que já não é mau.
10.02.2018 15h30mn
No escurinho do cinema
Hoje apetece-me ir ao cinema. Apetece-me fazer um intervalo na vida real durante uma hora e meia de faz de conta. Numa sala com tão pouca gente que seja possível despir o casaco e pendurá-lo na cadeira da frente. Como canta Paulo de Carvalho, "Sábado à tarde // no cinema da avenida // mal as luzes se apagavam // acendia o coração. // Sábado à tarde // era uma noite bonita // noite que sendo infinita // cabia na minha mão". Ou, como diz Rita Lee, "no escurinho do cinema // chupando drops de aniz // longe de qualquer problema // e perto de um final feliz". Hoje apetece-me ir ao cinema, como quando (...) "eu era o herói // e o meu cavalo só falava inglês" ou quando "a noiva do cowboy // era você além das outras três". Lembra aquela moda do Chico Buarque? No que diz respeito a letras de músicas, só lembro algumas partes. As melhores, claro.
09.02.2018 19h15mn
No Museu Soares dos Reis
[pintura ou colagem]
Um dia (quem sabe)
talvez vejam num museu
um trabalho meu.
Júlio Roldão 09. Fevereiro. 2018
Escrevi isto no portuense Museu Nacional Soares dos Reis, onde fui visitar José de Almada Negreiros, de "visita" ao Porto até o próximo dia 18 de Março. Neste primeiro olhar, senti a falta dos paineis que Almada criou para o Edifício das Matemáticas da Universidade de Coimbra. É obra também ignorada na cronologia do artista que sai no jornal 01 desta exposição de Almada no Soares dos Reis - "José de Almada Negreiros: desenho em movimento". Teria ficado bem ao lado dos estudos para as pinturas destinadas à Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos. Mesmo sem as cores das Matemáticas, prometi voltar ao museu para novo encontro com o Almada.
29.01.2018 09h30mn
Na fachada de uma casa (Cedofeita)
Na portuense Rua de Cedofeita, numa fachada de uma casa forrada a azulejos, alguém colou uns versos de Lourdes dos Anjos que cantam precisamente os azulejos do Porto. Esta intervenção fez-me procurar saber quem seria a autora e descobrir que é uma professora, mãe e avó, que elege a cidade do Porto, onde aliás vive, como tema poético. O grafitti dos versos fez-me recuar ao tempo dos meus vinte anos, quando as ruas das nossas cidades estavam pejadas de cartazes de Maria Helena Vieira da Silva a proclamar a rua como palco da poesia.