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Roldeck.

Júlio Roldão

19.04.2018 12h00mn

No soalho de uma casa em Penafiel

Há caruncho. No soalho de uma velha casa em Penafiel há caruncho ou bicho da madeira. Mas até a madeira com caruncho pode ter encanto. São as marcas do tempo que por ali passou e que a madeira captou para sempre. Enquanto for madeira e ranger. Há tábuas de madeira que rangem a anunciar chegadas ou partidas. Ou outros movimentos da vida.

18.04.2018 15h33mn

Na memória de uma luz branca.

Queria voltar
à quietude tão doce
de um certo Verão
que fez despertar
muitas Primaveras.

Júlio Roldão, na hora e no dia assinalados.

07.04.2018 10h33mn

Na cidade de Bolonha

Também tive um sonho
- o de viver em Bolonha
um ano de Erasmus.


J.R. 07.Abril.2018.
Talvez o Verão de Bolonha seja muito quente. A cidade é deslumbrante, mas dizem que nem à sombra da grande Basílica de São Petrónio se aguenta o calor quando ele aperta em Bolonha. Um ano de Erasmus? Bastar-me-iam duas semanas numa residência artística ou, mais modestamente, numa residência literária. Descobrindo novos lugares, como a Osteria De' Poeti, na via De´ Poeti, onde entrarei se voltar a Bolonha.

29.03.2018 12h50mn

Na primeira página do INYTIMES

Na primeira página do INYTIMES de hoje caiu um enorme peixe dragão vermelho apanhado na objectiva de Ore Huiying. Trata-se de um arowana caríssimo, um peixe estimação de aquário que pode atingir valores de dezenas de milhares de dólares, sem contar com preço de uma operação oftalmológica para realçar os olhos do dragão, cirurgia muito frequente nestes peixinhos. Não sei se o fotografado arowana já tem aquele olhar que o torna especial. De costas, como aparece no jornal, mais parece um galo.

29.03.2018 01h11mn

Numa carta em papel bordado

Num papel bordado, como eu nunca tinha visto, há uma palavra escrita, ou melhor, bordada, que é difícil de decifrar. Tal papel de carta e respectivo bordado tem desenas de anos. O papel, pautado, já amarelecido nunca foi utilizado. Aquele bordado foi feito para alguém. Não se trata - julgo eu - de um papel de que possa ser produzido em série assim com bordados. Alguém quis acrescentar-lhe valor mas depois não teve coragem de enviar a carta e guardou o papel bordado. Não terá querido desfazer-se de um trabalho tão delicado e raro como o que ocupa a metade superior da primeira página de uma carta de quatro páginas. Se se conseguisse decifrar a palavra bordada talvez fosse mais fácil reconstituir o romance que se esconde numa carta em papel bordado por escrever.

27.03.2018 19h44mn

Na serenidade da Sereníssima

Na serenidade // da cidade sereníssima // quanta inquietude.
Eis a vocação do que escrevemos, reescrevendo memórias, redesenhando projectos, voltando a olhar para os incertos passados e para as versões que mais gostariamos de ver consagradas. Este é o reverso da medalha de ouro da serenidade. A inquietude como critério para o que gostariamos que fosse a nossa própria história. Afinal também podemos escrever a nossa própria história, alegando que ninguém está em melhores condições para o fazer. Alegação não rigorosamente verdadeira mas plausivelmente aceitável.

20.03.2018 07h55mn

Na minha oficina da palavra

Descubro, num anúncio dos centenários joalheiros Van Cleef & Arpels publicado na última página da edição internacional de hoje, dia 20 de março, do New York Times, sob o título "Such a lovely Spring", que a Primavera, neste nosso hemisfério Norte, vai chegar esta tarde. Esta chegada lembra-me sempre a peça de teatro "O Despertar da Primavera", de Frank Wedeking, e tudo o que ela desperta, o que justificou, hoje, o trabalho oficinal da palavra que reproduzo na imagem anexa. Este exercício é, para mim, um dos prazeres da leitura dos jornais de papel. É quase um recorte de jornal.

19.03.2018 09h33mn

No dia dito Dia do Pai

Dezasseis anos depois de ter-me despedido do meu pai, ganhei coragem e fiz um desenho que lhe teria oferecido caso ainda pudesse. O desenho é sempre o menos importante e não passa de um pretexto para outros textos. No caso para lembrar-me, como acontece muitas vezes, do meu pai, um homem bom incapaz, por exemplo, de utilizar palavrões na linguagem corrente. Lembro-me que um dia, atrevassando ao lado dele o portuense largo fronteiro à estação ferroviária de Campanhã, tive a deselegância de comentar a lentidão de um autocarro que no momento ali passava com a frase grosseira "esta merda nunca mais anda". Olhando-me desagradado, meu pai limitou-se a perguntar se era essa a linguagem que eu andava a aprender na Universidade de Coimbra.

16.03.2018 11h59mn

Numa Maré do Rio de Janeiro,

Regresso às imagens que trouxe do Rio de Janeiro para recriar as cores da paleta da minha alma na ressaca da execução, aos 38 anos, de Marielle Franco, mulher libertada e libertadora da favela da Maré, eleita vereadora da cidade maravilhosa e fiel defensora dos que ainda vivem nas condições em que ela nasceu e cresceu. Vítima do ódio cultivado pelos que vivem a negar cidadania aos outros, Marielle será sempre o rosto de uma mulher cidadã inteira a desafiar a lei dos seus assassinos, velhos que ainda subjugam, pelo terror das armas de fogo e outras conivências, largos exércitos de escravos.

12.03.2018 08h08mn

Na minha velha Remington

Com um nome de guerra e de poderosas armas mais temíveis do que as espingardas que também usam esse apelido, as máquinas de escrever antigas como a minha velha Remington têm a enorme vantagem de assumir, na versão final, versões preliminares mal escondidas sob tantos x quantos os necessários para tentar esconder a palavra ou a frase repudiadas. As velhas máquinas de escrever revelavam segredos antigos próprios do ofício da escrita ou até segredos de quem as utilizava para escrever. Primeiro escreveu desenhos, depois riscou desenhos e traçou desejos. Mas ficou lá tudo, no papel. Num original que assume o histórico daquela criação trabalhada como um acto oficinal. Tecnologias de fraca intensidade, no patamar dos lápis.