29.03.2018 12h50mn
Na primeira página do INYTIMES
Na primeira página do INYTIMES de hoje caiu um enorme peixe dragão vermelho apanhado na objectiva de Ore Huiying. Trata-se de um arowana caríssimo, um peixe estimação de aquário que pode atingir valores de dezenas de milhares de dólares, sem contar com preço de uma operação oftalmológica para realçar os olhos do dragão, cirurgia muito frequente nestes peixinhos. Não sei se o fotografado arowana já tem aquele olhar que o torna especial. De costas, como aparece no jornal, mais parece um galo.
29.03.2018 01h11mn
Numa carta em papel bordado
Num papel bordado, como eu nunca tinha visto, há uma palavra escrita, ou melhor, bordada, que é difícil de decifrar. Tal papel de carta e respectivo bordado tem desenas de anos. O papel, pautado, já amarelecido nunca foi utilizado. Aquele bordado foi feito para alguém. Não se trata - julgo eu - de um papel de que possa ser produzido em série assim com bordados. Alguém quis acrescentar-lhe valor mas depois não teve coragem de enviar a carta e guardou o papel bordado. Não terá querido desfazer-se de um trabalho tão delicado e raro como o que ocupa a metade superior da primeira página de uma carta de quatro páginas. Se se conseguisse decifrar a palavra bordada talvez fosse mais fácil reconstituir o romance que se esconde numa carta em papel bordado por escrever.
27.03.2018 19h44mn
Na serenidade da Sereníssima
Na serenidade // da cidade sereníssima // quanta inquietude.
Eis a vocação do que escrevemos, reescrevendo memórias, redesenhando projectos, voltando a olhar para os incertos passados e para as versões que mais gostariamos de ver consagradas. Este é o reverso da medalha de ouro da serenidade. A inquietude como critério para o que gostariamos que fosse a nossa própria história. Afinal também podemos escrever a nossa própria história, alegando que ninguém está em melhores condições para o fazer. Alegação não rigorosamente verdadeira mas plausivelmente aceitável.
20.03.2018 07h55mn
Na minha oficina da palavra
Descubro, num anúncio dos centenários joalheiros Van Cleef & Arpels publicado na última página da edição internacional de hoje, dia 20 de março, do New York Times, sob o título "Such a lovely Spring", que a Primavera, neste nosso hemisfério Norte, vai chegar esta tarde. Esta chegada lembra-me sempre a peça de teatro "O Despertar da Primavera", de Frank Wedeking, e tudo o que ela desperta, o que justificou, hoje, o trabalho oficinal da palavra que reproduzo na imagem anexa. Este exercício é, para mim, um dos prazeres da leitura dos jornais de papel. É quase um recorte de jornal.
19.03.2018 09h33mn
No dia dito Dia do Pai
Dezasseis anos depois de ter-me despedido do meu pai, ganhei coragem e fiz um desenho que lhe teria oferecido caso ainda pudesse. O desenho é sempre o menos importante e não passa de um pretexto para outros textos. No caso para lembrar-me, como acontece muitas vezes, do meu pai, um homem bom incapaz, por exemplo, de utilizar palavrões na linguagem corrente. Lembro-me que um dia, atrevassando ao lado dele o portuense largo fronteiro à estação ferroviária de Campanhã, tive a deselegância de comentar a lentidão de um autocarro que no momento ali passava com a frase grosseira "esta merda nunca mais anda". Olhando-me desagradado, meu pai limitou-se a perguntar se era essa a linguagem que eu andava a aprender na Universidade de Coimbra.
16.03.2018 11h59mn
Numa Maré do Rio de Janeiro,
Regresso às imagens que trouxe do Rio de Janeiro para recriar as cores da paleta da minha alma na ressaca da execução, aos 38 anos, de Marielle Franco, mulher libertada e libertadora da favela da Maré, eleita vereadora da cidade maravilhosa e fiel defensora dos que ainda vivem nas condições em que ela nasceu e cresceu. Vítima do ódio cultivado pelos que vivem a negar cidadania aos outros, Marielle será sempre o rosto de uma mulher cidadã inteira a desafiar a lei dos seus assassinos, velhos que ainda subjugam, pelo terror das armas de fogo e outras conivências, largos exércitos de escravos.
12.03.2018 08h08mn
Na minha velha Remington
Com um nome de guerra e de poderosas armas mais temíveis do que as espingardas que também usam esse apelido, as máquinas de escrever antigas como a minha velha Remington têm a enorme vantagem de assumir, na versão final, versões preliminares mal escondidas sob tantos x quantos os necessários para tentar esconder a palavra ou a frase repudiadas. As velhas máquinas de escrever revelavam segredos antigos próprios do ofício da escrita ou até segredos de quem as utilizava para escrever. Primeiro escreveu desenhos, depois riscou desenhos e traçou desejos. Mas ficou lá tudo, no papel. Num original que assume o histórico daquela criação trabalhada como um acto oficinal. Tecnologias de fraca intensidade, no patamar dos lápis.
04.03.2018 06h16mn
Numa caixinha para pó de arroz.
Estou a olhar essa caixinha para pó de arroz, uma caixa de metal, quiçá com espelho interior, e a pensar aconchegar-me nela durante uma próxima viagem clandestina até ao Japão. Efeitos secundários das cores e dos traços que sugerem calores e abraços, beijos e amassos, entre outras alucinações. Assim vou onde nunca fui e até viajo no tempo como aconteceu nos finais do século XV quando fui pela primeira vez ao Brasil integrando a equipa de Pero Vaz de Caminha.
28.02.2018 10h17mn
No rescaldo deste Fevereiro
Recuperando textos antigos, manuscritos esquecidos, fotografias amarelecidas e outras relíquias como relógios de pulso ou de bolso, canivetes e outros objectos dignos de vários acervos de vários museus, recuperando essas memórias 3D, lanço o meu dado da sorte sabendo que o brinde acabará sempre por sair à casa. É preciso cortar pelas óbvias linhas de corte e criar o tal cubo da sorte, colando as faces pelas badanas assinaladas, antes de poder dizer que os dados estão lançados. É só um, sei, mas se o clonar, uma única vez que seja, poderei utilizar aquela expressão, tão politicamente vulgar, no plural - os dados estão lançados - e esperar que a sorte me proteja no rescaldo deste mês de Fevereiro.
12.02.2018 13h35mn
Numa folha azul de 27 linhas
Numa folha azul de 27 linhas, duas das quais, a marcar as margens, vermelhas e perpendiculares às restantes 25, numa folha azul de 27 linhas é - dizem - proibido escrever nas margens, mas nem tudo o que está escrito é lei. Também devia ser proibido escrever nas entrelinhas e sabemos que nas entrelinhas é que muita gente consegue escrever a verdade. Pena é que não haja um dicionário ou um tradutor de entrelinhas, mesmo apenas on line. O tempo em que as declarações escritas e assinadas em papel azul de 27 linhas, com assinatura reconhecida por um notário, valiam para a vida já lá vai há muito. Valem, às vezes, só o tempo de um Carnaval, o que já não é mau.