Saiu hoje, no quinzenário Trevim, um jornal que ainda tem edição em papel, uma crónica de minha autoria. Já não me via assim publicado, preto no branco, em papel, há muito tempo. Aqui deixo os meus sinceros agradecimentos ao José Orlando, que foi quem mediou a publicação desta crónica, e a própria crónica.
JR
"Toca Outra Vez, Sam"
O Dr. Manuel Louzã Henriques cultivava a arte dos melhores colecionadores e colecionava ferramentas tão belas como os arados de lavrar a terra ou algumas máquinas de escrever. Também reunia instrumentos musicais como concertinas e outras sanfonas e até era o dono de um raro piano de estudo que guardava a entrada do bar Clepsidra, em Coimbra, piano velho ali a servir de encosto aos corpos meio cansados de quem bebia um último copo quando os olhos ficavam mais pequenos a medir desejos.
Aceito que haja quem duvide da existência desse piano, considerando, na feliz expressão de Milton Hatoum, a memória e a imaginação irmãs gémeas. Para Milton Hatoum “a memória, mais do que a realidade, é a revelação de um assombro, de uma admiração, de algo que se torna um mito”. Talvez esse piano de estudo tenha sido isto e ainda as músicas que nunca tocou - “play It again, Sam”, toca outra vez “you must remember this // a kiss is still a kiss // a sigh is just a sigh”. Casablanca, "As Time Goes By" *
Se de repente, ao segundo gin-tónico, eu e todos os meus amigos que nunca tocaram piano ouvirmos um anónimo pianista de um bar interpretar a “Ballade pour Adeline” de Richard Clayderman é quase certo que nos deixaremos transportar num sonho onde somos grandes e reconhecidos pianistas. E quando, por sorte, ouvimos cantar e tocar ao ritmo do bater do coração e da respiração humana? O Dr. Manuel Louzã Henriques é que sabia explicar como ninguém estas coisas da magia da música que nos toca.
Um dia, na Lousã, numa festa do jornal O Trevim ouvi-o falar, informalmente, sobre as diferenças entre o fado de Lisboa e o fado de Coimbra. Foi uma lição tão clara e exemplar que bem merecia ser evocada na hora de lembrar o Dr Manuel Louzã Henriques no recente aniversário do Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra (GEFAC). Mas não por mim, e muito menos de viva voz, como sugeriu um amigo, esquecendo-se que eu sou ainda muito mais desafinado do que era o piano mudo da entrada do bar Clepsidra.
Júlio Roldão
*"As Time Goes By" de Herman Hupfeld, canção indissociável do filme "Casablanca"