31.10.2023 16h56mn
Nas páginas de um jornal
Está a fazer oito anos, foi a 1 de Novembro de 2015, que o jornalista César Príncipe, numa intervenção proferida em Coimbra num almoço de trabalhadores e antigos trabalhadores do Jornal de Notícias, disse que já ninguém, exceptuando alguns accionistas, alguns banqueiros e alguns governantes, refere um qualquer título da Imprensa escrita com o sentimento de posse que se traduz na expressão "o meu jornal". À data, esta verdade não era tão visível como é hoje.
31.10.2023 11h02mn
Na Rua do Bonjardim
A sair de cena
sou muito desajeitado.
Não decoro as deixas
e perco-me em longas brancas
que geram silêncios
cheios de incomodidades.
Lendo a didascália da minha fala,
leio que chegou a hora
de sair de cena
pela esquerda baixa
e que o pano já caiu.
Júlio Roldão
31 |10 |2023
_________________________________
Da série "Poemas com 11 versos"
29.10.2023 19h43mn
No regresso a casa
A companhia aérea que melhor tem servido as minhas necessidades em matéria de viagens pela Europa é uma companhia de preços baixos cujo logotipo estiliza uma carranca de um famoso navio irlandês. Como passageiro em voos comerciais há mais de meio século considero-me um verdadeiro passageiro frequente desta companhia.
02.03.2023 15h15mn
No IPO do Porto
A minha última valsa
No segundo dia
do terceiro mês
vinte vinte e três
fui fazer a PET
lá no IPO do Porto.
Ponto Porto, ponto morto.
Porto morto, Porto ponto,
morto ponto, morto Porto
numa lenga lenga
que não se repete.
Dó, Ré, Mi Dó, Ré, Mi
Dó, Ré, Mi, Fá, Si
Ré
Ré, Mi, Fá
Ré, Mi, Fá
Sol, Fá, Mi, Ré, Dó.
Sem os tempos certos
e com as notas trocadas.
Assim como assim
eu nem sequer sei dançar.
Júlio Roldão
01.03.2023 09h00mn
No meu deserto
Quem chega a um dos desertos da Terra e do percurso de cada um, esses lugares sem sombras que não as que os homens projectam, lugares inóspitos onde só resiste vida com a força de uma Welwitschia Mirabilis (a planta que nasce no Namibe sob o nome popular de "polvo do deserto"), quem se faz a essa travessia acreditando que uma única tâmara poderá ser suficiente para aguentar três dias e três noites, está longe de imaginar o que será naufragar à vista de uma praia da margem direita do Mediterrâneo quando a esperança parece já tão perto.
Uma vez, numa peça de teatro, naufraguei improvisando o papel de patrão de costa de uma pequena embarcação que se tinha feito ao mar sobrelotada de passageiros que apostavam tudo nessa viagem para fugir de terrores e de misérias que só adivinhamos nos relatos pobres e insuficientes de alguns jornalistas em certos telejornais.
Numa das indicações de cena dessa peça de teatro, numa das chamadas didascálias, lia-se que os náufragos eram pessoas como nós "em busca um sítio melhor onde fosse possível viver e não apenas sobreviver". Quanto a mim, actor disponível a repetir, todas as doces noites, essa cena do naufrágio, limitava-me, pela repetição inerente ao Teatro, a "resistir à dureza da minha vida real" e a atravessar os meus desertos imaginários.
Eu que tenho entrado e saído de Itália tantas vezes, incluindo durante o tempo da pandemia da Covid'19 (ultimamente de visita a um filho e à respectiva família, entretanto alargada a mais um neto), eu já não sei se consigo indignar-me com as notícias que nos chegam de náufragos que morrem, também em praias italianas, por não entrarem nas quotas que impomos como limite de lotação concedida aos outros.
Perco-me, na relatividade das nossas vidas, a atravessar este meu recente indesejado deserto e a lamuriar a minha própria sombra, deserto e sombra só agora identificados. Agora que vou para velho e tenho nos bolsos várias tâmaras e esta imensa pena de mim.
13.02.2023 06h33mn
Numa longa espera
A ler notícias numa edição em papel de um jornal, como todos, escrutinador até das esperas. Sinalizado para avaliação das massas mais visíveis pelo levantamento de todos os marcadores possíveis, na linguagem cifrada dos cuidadores mais qualificados e especializados.
04.02.2023 07h50mn
Em Ponte de Lima
Eu quero nadar no Lima naquele lugar da ponte. Nessas águas nos perdemos e afogamos memórias, tentando reescrever as nossas próprias histórias.
03.01.2023 10h12mn
Em 2023
Leituras decantadas e cartas em papel timbrado. Duas promessas para o novo ano.
28.12.2022 07h46mn
Em Itália, no Natal de 2022
Em Itália, no mais agitado Natal dos últimos anos. Um Natal que incluiu uma passagem pelas urgências hospitalares, na própria noite de Natal, e a triste notícia, no dia 26, da morte do meu grande amigo José Altino
19.11.2022 18h00mn
Na Associação dos Jornalistas
Numa vernissage de retratos antigos. A apresentar o "Tempo dos Tios", exposição de pintura de Filomena Correia, na Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto.